Todas as hitórias têm uma introdução, um ponto de partida. Por isso, começámos por perguntar qual o momento na história de cada um, que os levou para o caminho do Design e não para outro qualquer. As respostas variam na idade. Para as mulheres designers do STUDIO apareceu cedo na infância ou na adolescência e para o nosso designer já quando um jovem adulto.

Desde que me conheço que o universo visual e criativo me fascina. Os lápis de cor e os rabiscos e… a vontade de ser pintora quando fosse grande. – dizia eu, aos 5 anos.

Mais tarde o cuidado visual nos trabalhos da escola. Ou seja, querer ser sempre eu a finalizar os trabalhos para ajustar as cores, tipos de letra, fazer a capa. Todas estas características conduziram-me ao mundo das artes visuais, onde me sentia um peixe na água.

Que felicidade era poder pintar e ser criativamente livre, por isso, o percurso seguinte fazia todo o sentido: escolher o curso de Design. Ser designer permitia-me comunicar visualmente com os outros e isso estimula-me a mente. E depois de estudar e treinar, pufff! Sou designer!!!

O quê? Eu sou paga para fazer isto? – nem queria acreditar que podia fazer o que tanto me divertia e me deixava entusiasmada como foco profissional. Que sortuda, pensei eu!

Tânia Forreta
Ilustrações de Tânia Forreta com 15 anos

O meu desejo de ser designer começou quando andava no Liceu. Já tinha a ideia que queria ser designer gráfica, mais propriamente dedicar-me ao design editorial. Pretendia trabalhar numa revista ou para uma editora, tinha o desejo de fazer paginação de livros e criar as suas capas. No fundo tudo o que estivesse ligado ao universo de Irma Boom[1]. 

Sempre tive um grande fascínio por livros e por todo o processo da sua composição, desde a decisão das grelhas, as cores, a tipografia, as imagens. A forma de se projetar graficamente um livro pode ser tão distinta que, ainda hoje, procuro livros que tenham características de grelhas de paginação diferentes para me inspirar e incluir na minha coleção. Gosto de pensar que por trás de cada livro há uma história desconhecida por contar. Como um objeto intemporal que bem preservado dura uma vida e passa entre gerações. 

Para mim, como designer o mais importante são as capas dos livros, pois é o que fica na memória. Por exemplo, tenho gravado na memória as capas dos Livros RTP da coleção «Biblioteca Básica Verbo» que herdei do meu avô. Engraçado lembrar-me disto! O meu avô sempre colecionou bons livros de editoras portuguesas sem saber o autor das suas capas. Curiosamente grande parte das suas coleções estão designers portugueses de renome, como Sebastião Rodrigues e João da Câmara Leme.

Ana Lisboa
1. Capa de Sebastião Rodrigues, «O Jogador» de Fedor Dostoievski. Livros RTP, coleção Biblioteca Básica Verbo, n.º3. Editorial Verbo. 1970. 2 .Capa de João da Câmara Leme «O Mistério da Tapeçaria» de Nigremont, G., Biblioteca dos Rapazes, n.º 53. Lisboa: Portugália Editora. 1963. Fotografia de Ana Lisboa.

Descobri o design sem me aperceber. Desde criança que tenho um lado criativo e imaginativo muito forte que se manifestou tanto nos desenhos e esboços da infância como nas reflexões e esquissos da adolescência.

Estes, tal como sonhar acordado, acompanham-me até hoje. Sem que me aperceba, estes momentos desligam-me do mundo exterior e permitem que me exprima num mundo infinito e controlado onde se manifesta a imaginação.

Não seria correcto falar deste lado escapista sem mencionar as raízes: uma mente analítica que se prende em pequenos pormenores, os documenta e estimulam a imaginação.

A duas vertentes levaram-me a estudar arquitetura mas cedo me apercebi que a comunicação dos projetos, explicá-los ao mundo exterior era um desafio bem mais interessante que a relação das pessoas com as cidades.

A tarefa de dar o tom de voz, direccionar para quem queria comunicar, a disposição e forma dos elementos, tornaram-se um exercício cativante sem que eu desse conta e, com isto, descobri o design.

Jorge Silva

O que é para ti ser designer?

Ser designer para mim é ter responsabilidade perante o mundo e os outros. Somos nós que enchemos as ruas e as mentes com informação visual. Somos nós que, também, atuamos como educadores da sociedade. 

Ser designer é acordar cedo. Por vezes sem vontade e energia, até que de repente nos lembrarmos: Espera aí! Tenho aquele briefing super complicado para fazer, como o hei-de solucionar? Tenho de fazer algo espetacular! E levantamo-nos num salto, como se o mundo não pudesse esperar mais por nós. Há muito a fazer!

Ser designer é ter, também, dias de frustração, em que duvidamos das nossas capacidades… se somos suficientemente bons ou se o nosso cliente realmente teima em não ver o universo com os nossos olhos.

Ser designer é 20% das vezes ter crises existenciais. A criatividade que por vezes flui como uma cascata, deixa de fluir… é nestes momentos em que o estranho designer se alia aos outros designers e, numa comunidade, se salvam mutuamente. Principalmente, porque pensamos igual.

Tânia Forreta

Embora estivesse certa que queria ser designer, no desenrolar do meu percurso acabei por enveredar por outras áreas do design. Em parte, devido às oportunidades profissionais que tive ao longo destes anos, dediquei muito do meu tempo a trabalhar em branding, identidades corporativas e visuais e, nos últimos anos, em web design e design ui/ux. Percebi que ser designer é projetar; é ser metódico; é saber distinguir as empresas ou produtos dos seus concorrentes no mercado por abordagens inovadoras; é saber cumprir prazos e escutar os desejos do cliente para torná-los possíveis; é saber desmitificar e interpretar mensagens simplificando-as; é promover experiências e resolver constantemente problemas, mas sobretudo, ser pró-ativo.

Ser Designer é ter uma atitude ativa.

No design devemos ter uma atitude ativa, devemos ser éticos sociais e ecológicos uma vez que cada vez mais é iminente ter uma maior conscientização nas questões ambientais.Quando li o livro «Design as an Attitude», de Alice Rawsthorn, considerei como uma das melhores referências sobre o design nos dias de hoje. Além do livro exemplificar diferentes projetos que aplicam práticas de design sustentável, ambiental e social. A autora faz uma excelente explanação sobre o design através da visão de László Moholy-Nagy quando diz que «o design não é uma profissão, mas uma atitude». Para Alice Rawsthorn, qual seja a forma em que o design se manifeste, um bom design deve ser eticamente consciente e aspirar a ser um agente positivo de mudança. Ainda que a disciplina de design possa estar atravessar um período de desafios e o seu impacto nas nossas vidas estar a mudar rapidamente. Ao longo deste tempo a disciplina de design, foi adotando diferentes significados em diferentes tempos e contextos. O design sempre foi um elemento principal como agente, na forma como interpreta qualquer tema nomeadamente, social, politico, económico, tecnológico, cultural, ecológico uma vez que assegura o que nos pode afetar positivamente em vez de negativamente.

Ana Lisboa

Ser designer é planear a construção de um sistema ou processo para resolver um problema, através de um processo criativo que tem em mente o público/utilizador para que a solução seja tão intuitiva quanto eficaz. Este processo nem sempre corre com a mesma fluidez. Há vários desafios a superar e se por um lado, somos milagrosamente colocados no topo da montanha onde avistamos com facilidade a solução, por outro temos de explorar a selva com esperança de nos aproximar da fonte.

Na verdade, de uma forma ou de outra, o design sempre esteve presente na civilização humana. A espécie humana é inteligente e criativa. Da pintura rupestre aos mais recentes produtos digitais, sempre teve um desejo de criar e desenhar soluções. E a base do design é esta — o processo criativo de planear a construção de um objeto, sistema ou processo para resolver um problema.

Este lado fascinante levou-me a estudar esta disciplina para a dominar. Descobri o propósito, a história e métodos para chegar a soluções tão funcionais quanto apelativas. Descobri várias ferramentas, técnicas e desenvolvi competências para as criar — investigar, esboçar, prototipar e testar, de forma a que a solução final respeite quem as vai usar, as tendências do mercado e as limitações. 

Devo ainda mencionar que o design é um acto de contar uma história, tal como um bom filme, pintura ou livro (o que compensa não ter grande jeito para o fazer verbalmente). Cada elemento — cor, tipografia e formas — tem a capacidade de evocar emoções e o papel do designer é escolher os melhores ingredientes para uma narrativa envolvente e cativante. Dou um exemplo: não visualizo um cartaz para um evento de jazz com tons escuros, grelha (base onde os elementos assentam) certa ou uma escolha tipográfica floreada. Será mais acertado uma composição tipográfica, de cor e layout capaz de expressar o seu espírito vivo e inquietante! Esta é uma das razões que me continua a fazer design: quando bem executado, consegue fazer o público voar para outro mundo, despertar variados sentidos ou tomar uma acção. Tal como os escritores usam palavras, os designers criam elementos e conceitos.

À semelhança de uma história, o produto final do design tem de ser coerente. Caso contrário, será uma casa com portas coladas ao tecto, uma cidade com uma única estrada ou um garfo com a ponta em T. A menos que seja essa a intenção, parecem-me soluções frágeis na sua concepção e muito pouco úteis. O mundo está cheio de exemplos de mau design: sinalética indecifrável, cartazes de promoção de eventos que suscitam dúvidas, publicidade que em nada reflecte o produto ou tragédias em eleições.

O design está presente no quotidiano e reflete a nossa cultura, valores e crenças na sociedade e também é capaz de a moldar, influenciando a forma como as pessoas interagem e percepcionam o que as rodeia. Isto acontece a nível individual e colectivo: veja-se o caso da arquitectura, o design de interiores e de moda, o editorial, de web ou gráfico através do tempo. Além disto, tem o poder de criar pontes entre culturas quando entende a diversidade do público-alvo: idade, etnias, acessibilidade, sexo, orientações sexuais e religiões. É por isto que julgo que tem um papel crucial na formação do público e na promoção de trocas culturais e sociais.

Jorge Silva
Boletim de Voto do Estado Florida (EUA, 2000)

Ainda te sentes enamorada/o pela profissão?

Sim, adoro fazer design e explorar as diversas áreas do design que me façam evoluir na profissão e ganhar mais competências técnicas. Nos últimos anos, ao voltar a estudar sobre a disciplina do Design Gráfico, fez com que tivesse uma percepção diferente sobre a minha profissão e estimulou-me a reinventar-me como designer. Acredito que na nossa profissão, devemos estar constantemente a educar-nos e a procurar diferentes formas de desenvolver as nossas habilidades, pois são fundamentais para manter-nos atualizados neste campo. Além disso, como responsável por uma equipa de design, por vezes acabo por dedicar-me mais ao ensino e às pessoas, bem como à parte da gestão e estratégia do design e não tanto à prática da disciplina. É tudo um novo saber e gosto! Especialmente da parte da mentoria, de sentir que consigo influenciar e orientar a equipa para juntos rumarmos no mesmo sentido.

Ana Lisboa

Ainda me sinto enamorada. Passei por várias fases até à designer que sou hoje e quando olho para o meu início de percurso vejo o que evoluí, o que aprendi e imagino o que ainda tenho para aprender.

Enquanto sentir o entusiasmo e a adrenalina de um novo projeto é porque continuo no caminho certo enquanto designer.

Tânia Forreta

Vejo o Design como uma ferramenta poderosa para ser usada para agarrar a audiência e comunicar uma mensagem de forma clara, enquanto resolvo um problema do mundo real. Conto uma história e dou uma solução. Do design de interação ao design  editorial, o processo criativo envolvido sugere novas perspectivas capazes de me pôr a pensar e refletir. E é esta possibilidade de criar soluções inovadoras, esteticamente apelativas e funcionais que o torna tão gratificante. Isto pode ser uma visão romântica da coisa mas não me parece ser menos verdade por isso. 

Jorge Silva

[1] Irma Boom (15 de Dezembro de 1960) é uma designer gráfica neerlandesa especializada na produção de livros. A abordagem experimental e arrojada dos seus projectos desafia frequentemente as convenções dos livros tradicionais, tanto em termos de design físico como de conteúdo impresso.